Entrevista

A pastorícia é muito mais do que… queijo

Há uma realidade dura por trás do setor da produção animal e Sandra Duarte conhece-a bem. Numa conversa entre ovelhas, estudantes e lã, a Coordenadora Técnica da ESACB explica os desafios que o setor tem de vencer para sobreviver a longo prazo.

Na Escola Superior Agrária de Castelo Branco (ESACB), a produção animal é também uma escola de realidade e Sandra Duarte conhece-a bem. Natural da Covilhã, chegou à escola em 1996 como estudante e por ali ficou. Ao fim de mais de duas décadas em contacto diário com rebanhos e estudantes, a Técnica Superior da ESACB e coordenadora da Unidade Técnico-Funcional da “Quinta” conhece bem as dificuldades e as oportunidades da pastorícia na Beira Baixa. Nesta conversa aberta com a Grande Rota da Transumância, à margem da tosquia dos ovinos da escola pela Ovibeira – Associação de Produtores Agropecuários, aborda os desafios da produção ovina, a relação dos jovens com os animais, a crise da lã e a necessidade de dar um rosto e uma dignidade à profissão de pastor.

pessoas a conversa e a ver a tosquia das ovelhas

Sandra Duarte á conversa com os estudantes em aula prática de manuseamento e tosquia dos animais.

A relação dos jovens com a produção animal

Quem são estes jovens que estão hoje aqui a apoiar esta atividade?
São alunos da escola. Alguns do curso de Enfermagem Veterinária, uns da licenciatura e outros do CTeSP – Curso Técnico superior Profissional de dois anos focado na componente prática e empregabilidade, sem conferir grau académico.

Sente-se entusiasmo. Como é a relação dos jovens com esta atividade? Há interesse pela produção animal?
Não é uma relação fácil. A produção primária é vista, muitas vezes, como o “parente pobre” da agricultura. Quem vem para esta área, ou é porque tem familiares ligados à atividade, ou porque descobre o interesse já cá dentro.

Muitos dos estudantes do curso de Enfermagem Veterinária chegam aqui porque não conseguiriam entrar em Medicina Veterinária. Alguns acabam por gostar da prática e da interação com os animais e ganham ânimo para continuar, mas são poucos. Outros trazem já muitas resistências, e quando é preciso lidar com os animais, a sujidade, os cheiros, e a dureza das tarefas do quotidiano, desanimam.

Na produção de grandes animais, para consumo, talvez 20% dos alunos sigam a atividade. A maior parte vem mais inclinada para os animais de companhia.

Essa componente prática acaba por mudar a perceção deles sobre a atividade?
Muitas vezes, sim. Quando começam a lidar diretamente com os animais, alguns mudam a forma como olham para a atividade, mas temos um pouco de tudo. Há alunos que vêm para o CTeSP e depois ficam para a licenciatura, porque a prática ajuda-os a ganhar interesse e confiança. Ainda assim, a produção animal, sobretudo a produção de grandes animais, continua a não ser a primeira escolha da maioria.

jovens num bardo entre ovelhas tosquaidas

Jovens alunos do curso de Enfermagem Veterinária da ESACB.

Quantos desses alunos imagina que poderão seguir para a produção animal?
Na produção de grandes animais, para consumo, talvez 20% dos alunos sigam a atividade. A maior parte vem mais inclinada para os animais de companhia. É aí que muitos veem o mercado e é também a área que lhes desperta mais interesse. Mas já se começa a notar que as clínicas e hospitais veterinários não absorvem todos, o que leva alguns a valorizar a produção primária.

A dureza e exigência da atividade assusta-os?
Sim, a produção de ovinos e caprinos é uma atividade dura. É uma vida presa. São 365 dias por ano. Não há férias, não há fins de semana como noutras profissões.

Por exemplo, uma exploração pequena, com 300 ovelhas, por exemplo, não gera rendimento para contratar alguém, o que obriga a família a ficar presa à exploração. Para poder contratar, é necessário ter mil ou mais animais, ou então uma exploração com ordenha e uma escala que justifique esse investimento. Nos rebanhos pequenos, a atividade torna-se uma prisão. E as pessoas, naturalmente, não querem essa prisão.

pastor a manusear um bode da raça merino

Euclides Saraiva, Técnico de pastorícia da ESACB. Trabalha na escola há 42 anos.

Pastor, o parente pobre da pastorícia

A oferta de formação existente nesta área é suficiente? Já houve uma Escola de Pastores…
A ESACB é uma boa escola e há mais com qualidade, mas eu diria que falta em Portugal falta uma estrutura de formação contínua para pastores. Em Espanha, no País Basco e em França, por exemplo, existem escolas de pastores que abrem vagas todos os anos. Há continuidade.

Já houve uma Escola de Pastores, e uma Escola de Queijeiros, no âmbito do PROVERE Queijos Centro Portugal. Mas foram duas edições, associadas a financiamento específico e quando o dinheiro acabou, a formação também acabou. Não houve continuidade. E isso faz falta.

“O pastor continua a ter uma conotação negativa, é visto como alguém sem estudos, que foi para a atividade porque não teve outra alternativa. Isso é muito injusto e afasta os jovens.”

Que impacto teria uma Escola de Pastores em Portugal?
Teria impacto na valorização da profissão. O pastor continua a ter uma conotação negativa, é visto como alguém sem estudos, que foi para a atividade porque não teve outra alternativa. Isso é muito injusto e afasta os jovens.

Ser pastor exige conhecimento. Exige saber lidar com animais, pastagens, sanidade, maneio, território. Mas socialmente essa dimensão nem sempre é reconhecida. Uma escola de pastores ajudaria a mudar essa perceção. Daria formação, dignidade e reconhecimento técnico à profissão.

Sente que a imagem pública do pastor continua presa a estereótipos?
Sim. Muitas vezes, quando se mostra um pastor na televisão, mostra-se alguém sem grande conhecimento técnico e isso não ajuda a valorizar a profissão.

Na Serra da Estrela, por exemplo, a figura do pastor já tem outro peso, muito associada ao queijo, à serra, ao capote, às ovelhas e à paisagem. Já há ali uma narrativa construída e positiva, onde o pastor tem um papel reconhecido no produto e na gestão do território. Na Beira Baixa isso ainda não aconteceu.

mulher dentro de um pavilhão animal a tomar anotações

Sempre focada.Tudo o que acontece na “Quinta” da ESACB, passa por Sandra.

Falta à Beira Baixa uma narrativa mais forte em torno do queijo e da pastorícia?
Sim. Aqui temos o Queijo da Beira Baixa, temos produtos de grande qualidade, mas nunca se fez uma ligação suficientemente forte entre o queijo, as pastagens, os animais, os produtores e o meio ambiente.

Na Serra da Estrela, o marketing foi feito de outra maneira. O queijo aparece associado ao pastor, às ovelhas, à serra, aos ecossistemas, à paisagem. Aqui, essa ligação ainda não foi trabalhada.

Quando se fala do Queijo da Beira Baixa, fala-se muito das queijarias e das cooperativas. E bem, porque têm um papel importante. Mas falta dar mais protagonismo aos produtores, aos pastores, aos animais e ao território onde tudo acontece.

“O pastor tem um papel que vai muito além de guardar as ovelhas, ele cuida delas, ordenha-as, faz queijo, tem uma relação com a paisagem através da gestão das pastagens. É um gestor dos ecossistemas. E isto precisa de ser comunicado.”

Ou seja, o produto foi valorizado, mas a cadeia que está por trás dele, não.
Exatamente. O queijo tem prémios e qualidade, mas falta trabalhar tudo o resto. Falta mostrar o papel do produtor, do cuidador das ovelhas, de quem garante o leite de qualidade e mantém a atividade no território.

O pastor tem um papel que vai muito além de guardar as ovelhas, ele cuida delas, ordenha-as, faz queijo, tem uma relação com a paisagem através da gestão das pastagens. É um gestor dos ecossistemas. E isto precisa de ser comunicado.

ovelha churra do campo a posar para a fotografia

Lã das ovelhas Churra do Campo.vai para Maçainhas,, Guarda, para fazer os célebres cobertores de papa.

A crise da lã

Falemos do que nos trouxe hoje aqui, a lã. Quantos animais existem atualmente na exploração da escola e quantos quilos de lã originam?
Temos perto de 300 animais. Cada um dá, em média, cerca de dois quilos de lã. Portanto, estamos a falar de aproximadamente 600 quilos de lã.

E o que acontece a essa lã?
Nos anos anteriores entregávamos a lã à Ovibeira, que depois tratava do restante processo e pagava-nos. Este ano optámos também por recorrer aos serviços de tosquia da cooperativa.

No caso da lã das ovelhas Churra do Campo, desde 2023 que vendemos a lã à Retrosaria Rosa Pomar, em Lisboa. Eles trabalham muito bem o fio, os velos e usam-na para produzir camisolas e meias, por exemplo, e têm também uma ligação aos cobertores de papa, em Maçainhas, na Guarda.

“A lã é uma matéria-prima orgânica nobre, com muito potencial. Mas, sem estruturas de transformação e sem apoio será difícil criar valor.”

Como tem sido a valorização da lã nos últimos anos?
A lã tem vindo a perder muito valor, por vários fatores. Por um lado, é muito difícil competir com as fibras sintéticas, por outro, temos assistido ao encerramento dos lavadouros de lã, o que torna tudo mais difícil.

Porquê?
Os lavadouros antigos tinham custos ambientais muito elevados, nomeadamente com o tratamento de águas. Eram indústrias antigas, que exigiam muita modernização. O último lavadouro que tínhamos, na Guarda, fechou no ano passado. Ainda há um lavadouro particular no Alentejo, mas muitas vezes a alternativa é lavar a lã em Espanha.

Sendo a lã uma matéria-prima natural de grande qualidade, porque é tão difícil acrescentar-lhe valor?
A lã é uma matéria-prima orgânica nobre, com muito potencial. Mas, sem estruturas de transformação e sem apoio será difícil criar valor. Se o Estado não intervir, se não houver uma solução pública e apoios ao setor, não será fácil manter a atividade.

Ovelha da raça merino a serem tosquiadas por um técnico da Ovibeira

Formação. Aluna da ESACB a aprender com o experiente técnico da Ovibeira.

Mas há hoje usos alternativos para a lã, que podem contribuir para a sua valorização. Como vê essas soluções?
Há projetos a tentar encontrar outras utilizações. Há quem esteja a trabalhar a lã para fazer pellets para queimar ou para composto. Aqui na escola também existe um ensaio em que se está a utilizar lã como cobertura de terrenos, para ajudar no controlo de infestantes. No entanto, em ambos os casos, é uma utilização pobre para uma matéria-prima tão nobre. É triste ver a lã, que podia ser um produto valorizado e convertido em produtos de qualidade, a ser usada de forma tão pobre.

A lã corre o risco de deixar de ser vista como matéria-prima e passar a ser tratada como resíduo?
Sim. Se não houver uma intervenção estruturada, se não se mostrar que a lã é um produto nobre, podemos chegar ao ponto de não haver outra solução senão enterrá-la ou tratá-la como um problema. E isso seria uma perda enorme. Porque estamos a falar de uma matéria-prima com história, qualidade e potencial.

A valorização da lã também depende de comunicação?
Tal como acontece com o queijo e com a pastorícia, também a lã precisa de ser melhor comunicada. As pessoas precisam de perceber de onde vem, como é produzida, que propriedades tem e o papel que pode ter numa economia mais sustentável.

Mas atenção, só comunicar não chega. É preciso haver transformação, mercado e estruturas que permitam que a lã chegue ao consumidor com valor acrescentado.

“É preciso explicar que a pastorícia não é apenas guardar ovelhas. É produção de alimento, é gestão de território, é manutenção de paisagens, é cultura, é economia local.”

No fundo, estamos a falar de um setor que precisa de ser olhado de forma integrada.
Sim. Não podemos olhar apenas para o queijo, ou apenas para a lã, ou apenas para os animais. Está tudo ligado: o produtor, o pastor, as pastagens, os animais, o território, o produto final.

Se queremos valorizar o setor, temos de valorizar toda a cadeia. E temos de mudar a forma como a sociedade olha para quem trabalha na produção primária.

rebanho de ovelhas merino

Ovelhas da raça Merino. Têm uma lã de maior qualidade usada na produção de peças de vestuário.

O que é necessário para inverter essa imagem negativa?
O que falamos nesta conversa. Formação, comunicação e valorização. Formação, porque é preciso criar competências e mostrar que ser pastor ou produtor exige conhecimento. Comunicação, porque é preciso contar melhor estas histórias. E valorização, porque o trabalho das pessoas tem de ser reconhecido económica e socialmente.

Também era importante que os eventos e feiras dessem mais centralidade aos animais e aos produtores. Que não estivessem apenas presentes, mas que fossem realmente protagonistas.

Há, então, uma pedagogia a fazer junto do público?
Sem dúvida. É preciso explicar que a pastorícia não é apenas guardar ovelhas. É produção de alimento, é gestão de território, é manutenção de paisagens, é cultura, é economia local.

Enquanto esta mensagem não for passada e assimilada, a atividade continuará a ser vista de forma redutora. E isso prejudica os produtores, afasta os jovens e empobrece a imagem do território.

Que mensagem gostaria que ficasse desta conversa?
Que a produção primária tem valor. Que os pastores, os produtores e os animais têm um papel muito maior do que aquele que muitas vezes lhes é reconhecido.

Na Beira Baixa, temos produtos de qualidade e uma história ligada à pastorícia que merece ser mais bem contada. Falta dar protagonismo às pessoas, aos animais e ao território. Falta mostrar que tudo isto faz parte de uma cadeia viva, que precisa de reconhecimento e continuidade.

Fonte e fotos Grande Rota da Transumância.