Entrevista

Do escritório da Volkswagen às ovelhas do Rosmaninhal: Uma história de reinvenção

Há quem diga que é preciso coragem para largar tudo. João Barata diria que, às vezes, é simplesmente necessário.

Aos 65 anos, João Barata não corresponde ao perfil típico de quem cria ovelhas no interior raiano. Diretor financeiro durante anos numa das maiores multinacionais automóveis a operar em Portugal, viveu décadas ao ritmo acelerado de Lisboa – reuniões, relatórios, stress. Até que um dia, o corpo disse basta.

Em 2013, com um problema de saúde como catalisador e uma ligação afetiva antiga à terra onde os seus avós viveram, tomou uma decisão que os colegas classificaram de loucura: mudou-se para Segura, no concelho de Idanha-a-Nova, e mais tarde para Rosmaninhal. Hoje, além da consultora financeira que montou, gere com a companheira Luísa Serejo uma alojamento rural e uma exploração agrícola com 150 ovelhas em 100 hectares de terreno. Os colegas estavam enganados.

João Barata, na exploração Quinta do Vale Mosteiro.

João Barata, na exploração Quinta do Vale Mosteiro.

Não ser… “mais um”

A primeira lição que João trouxe de Lisboa foi a de não replicar o que já existe. Quando chegou ao interior, havia contabilistas. Mas faltava algo diferente: um parceiro de negócios que conhecesse verdadeiramente os micro-empresários locais, que fizesse análises semestrais, que explicasse os números em vez de apenas apresentar faturas.

Em vez de ter 300 ou 400 clientes, quero um nicho de 40 ou 50, com os quais eu consiga ser um parceiro de negócios.

O resultado? O rendimento que obtém hoje da sua atividade de consultoria é, segundo João, praticamente equivalente ao que auferia na Volkswagen – com a diferença de que, no Rosmaninhal, esse dinheiro vale muito mais.

O negócio das ovelhas: romantismo ou realidade?

A exploração de ovinos nasceu de um raciocínio puramente financeiro. A família de Luísa tinha 100 hectares de terreno praticamente improdutivo, sem o encabeçamento mínimo de animais necessário para receber os apoios agrícolas na sua totalidade. Para João, o analista financeiro que nunca desligou, era um desperdício evidente.

Depois de alguns anos a gerir a Quinta do Vale Mosteiro – um alojamento rural que acabaram por encerrar pela dificuldade em encontrar mão-de-obra e pelo desgaste físico dos meses de verão -, a decisão foi reinvestir nas ovelhas. Em 2024 começaram. Em 2026, diz, “já vamos começar a ter retorno”.

“Uma exploração com 150 ovelhas bem gerida dá para sustentar uma família. Não dá para enriquecer, mas dá para viver bem.”

Os números concretos ajudam a desmistificar tanto o romantismo como o pessimismo:

  • Custo por ovelha: cerca de 100€/ano em rações complementares ao pasto próprio;
  • Veterinário: aproximadamente 200€ por ano (duas visitas anuais);
  • Venda de borregos: entre 70€ e 130€ por cabeça, conforme o mercado;
  • Propriedade: 100 hectares, sem renda a pagar – “uma vantagem determinante”, diz João.
Homem a falar numa paisagem campestre

É possível viver e bem da produção animal, mas não é uma vida fácil.

O papel dos subsídios: bengala ou trampolim?

Nenhuma conversa sobre agricultura no interior português fica completa sem falar em subsídios. E João Barata não foge ao tema – mas a sua perspetiva surpreende.

Ao contrário do discurso mais comum de que “os apoios não chegam para nada”, João defende que chegam e bem – quando são geridos corretamente. O problema, diz, “é que raramente o são”. O grosso do dinheiro chega em setembro ou outubro, e há quem o gaste imediatamente em carros e férias, ficando sem fundo de maneio para o resto do ano.

A crítica mais profunda, porém, não é aos beneficiários – é ao modelo. Os subsídios agrícolas são perpétuos, o que gera dependência e desincentiva a eficiência, defende. A proposta de João seria um apoio inicial mais generoso, mas com prazo: no máximo dez anos. Ao fim desse tempo, a exploração devia conseguir sustentar-se por si própria.

“Quando pergunto ‘o dia que o subsídio acabar, tu tens capacidade de manter isto?’ A resposta que ouço é sempre a mesma: os subsídios não vão acabar.”

Estábulo de ovelhas com ovelhas a pastar nas proximidades

Ovelhas ou vacas? A escolha que poucos percebem

Quem olha apenas para os números de subsídio inclina-se para as vacas: cerca de 120€ por cabeça ao ano, contra 22€ por ovelha. Um bezerro vaca vale 600 a 700€ no mercado; um borrego, em boa época, chega aos 130€.

Mas no Rosmaninhal, a equação muda completamente. A região vive intensamente do turismo cinegético – grupos da Suíça, do Luxemburgo, de Itália que chegam em outubro e ficam uma semana inteira. A caça maior é incompatível com a presença de gado bovino nos mesmos terrenos, por causa da  Leishmaniose. A contrário das ovelhas, o gado bovino é facilmente contagiado por esta doença infecciosa muito frequente nos veados e corços, animais abundantes na região. E basta um animal ficar infetado para a exploração ficar impedida de comercializar os animais durante 5 anos

Este é um exemplo claro de como as decisões de gestão agrícola não podem ser feitas apenas com calculadora: o contexto local importa tanto como os números.

“Se uma vaca for infetada com leishmaniose, a exploração fica impedida de comercializar os animais durante cinco anos”
homens a conversar à frente de uma pick-up com um cão deitado ao lado, no chão

Conversas na campina de Idanha.

O interior não é para toda a gente. Tudo bem.

João Barata é honesto até à crueza neste ponto. O interior raiano não é para jovens em início de carreira. As oportunidades estão nas cidades, em Lisboa, Porto, entre outras, e é lá que se constrói “bagagem”, se fazem contactos, e se cresce profissionalmente.

O interior é, nas suas palavras, “a terra das oportunidades mais para a frente”, para quem já tem a vida estruturada, a carreira consolidada e a tolerância necessária para viver a 54 quilómetros do cinema mais próximo.

O Covid trouxe um boom de jovens urbanos para o campo. Alguns ficaram. Muitos voltaram. Não por fraqueza, mas porque há uma diferença entre visitar e habitar, entre romantizar e verdadeiramente escolher um ritmo diferente de vida.

cão rafeiro alentejano

Todo o rebanho tem um cão. Neste caso, é Goji, um rafeiro alentejano.

Literacia financeira, a lição mais transversal

Por mais que a conversa gire em torno de ovelhas e subsídios, o tema que atravessa tudo é outro: a falta de educação financeira.

Pastores com rendimentos confortáveis que chegam ao inverno sem dinheiro. Trabalhadores independentes que não fazem retenção na fonte e levam sustos no IRS. Licenciados em gestão que não sabem onde investir as poupanças além de uma conta a prazo com juro inferior à inflação.

O Covid trouxe um boom de jovens urbanos para o campo. Alguns ficaram. Muitos voltaram. Não por fraqueza, mas porque há uma diferença entre visitar e habitar, entre romantizar e verdadeiramente escolher um ritmo diferente de vida.

É uma crítica que não tem ideologia, é pragmática. Saber gerir dinheiro não é um talento inato nem um privilégio de quem trabalhou em multinacionais. É uma competência ensinável. E, segundo João, ainda demasiado ausente.

João Barata não encontrou a vida perfeita no Rosmaninhal. Encontrou uma vida melhor para si. Uma distinção importante, que ele próprio sublinha para quem o visita e pergunta, admirado, se está mesmo bem. “Sim, estou aqui e estou bem”, responde.

Fonte e fotos Grande Rota da Transumância.